26 de maio de 2007

GULA DE FAMÍLIA

Por Airton Soares (*)

Sabe aquele dia em que você amanhece com gula de família. Foi assim que me senti há onze anos quando convidei meu filho para almoçar comigo.

Recém separado, me sentia só e solitário e numa sexta-feira, almoçar com o filho não teria pedida melhor.

Cuido cedo dos preparativos. Corro à loja mais próxima. Compro toalha de mesa, talheres, guardanapos e uma infinidades de outros apetrechos pertinentes ao grande evento. Na volta, passo pelo mercado e compro Cará, o peixe dos meus `querê´. Componho a mesa. Toalha nova e vistosa; Talheres de fazer inveja a qualquer estrelado restô...

Nunca dei valor a isso. Pensava, enquanto fazia o almoço.

Peixada... Oba! Que cheirinho gostoso. Estava apreensivo, mas feliz. Pra quem não sabia fritar um ovo...

10h45min. Ele chega já. Não vejo a hora.

11h10min. Nada! Será que ele vem mesmo? Ligo? Não, ele vem. Não é possível...

13h14min. Julius, adolescentemente alvoroçado, adentra ao apartamento destampando a panela fervente e com espantosa naturalidade diz: “Vixe, pai, é peixe!?... Vou almoçar no seu Ivan.” `Seu Ivan´ - Restaurante familiar situado nas cercanias do meu apartamento.

Ele sai da mesma forma que entrara e eu, mentalmente disforme, fico com a minha peixada, na minha mesa bem posta, triste e só. Você pode fazer uma pequena idéia do meu martírio, obrigado que fui a almoçar só e solitário.

Enquanto esmurrava a mesa, amaldiçoando todos os filhos do universo, uma vozinha, lá dentro, me chama `prasConversa´: “Escute aqui, seu Airton, nada de ressentimentos, tá? Você há de lembrar da sua mãe: Aos domingos, quantas e quantas vezes, ela carinhosamente preparava seu almoço e vossa senhoria chegava lá pra cinco da tarde, das farras, “cheiDosPau”; E sua esposa... E blá...blá... Outra, seu Airton, você teve o mínimo cuidado em perguntar ao seu filho o que ele gostaria de almoçar? Não, não teve! Você preparou o SEU prato predileto na SUA mesa predileta. Se queixe não, jovem. Trate de curtir seu erro, sua dor, mas nada de ressentimentos.


Na ocasião, contei o ocorrido a um amigo e ele sem titubear aconselhou-me - Chama teu filho e passa na cara dele esse atrevimento.

Não chamei. E fiz muito bem. Chorei. Curti minha dor e aprendi uma grande lição - lição clichê -, mas imortal. O que se faz aqui, aqui se paga!


(*) Airton Soares é professor, palestrante e autor de O Mundo Fora de Esquadro. Mais informações: http://airton.soares.zip.net

23 de maio de 2007

Infringir ou Infligir? - Dúvida, nunca mais!

pá...LAVRAando 04

Técnica mnemônica.

Por Airton Soares

Se você toma pouca água durante o dia, quem paga o pato são os rins, pois você transgrediu uma lei orgânica. Até aqui, tudo bem? Então, passemos ao "palavrando" propriamente dito.

Na hora de um aperreio, é só associar o verbo infRINgir a esse órgão do corpo humano. Ele infRINgiu a uma das principais Leis da Constituição, por isso o juiz infligiu-lhe uma castigo de três anos de xadrez.

Infringir = Violar, transgredir.
Infligir = aplicar.
Veja que não tem sentido aplicar um "rin", mas tem sentido transgredi-lo...infringi-lo.

notAS:Nossa metodologia é a do `ABC´ > Aprendendo Brincando a gente Cresce.

13 de maio de 2007

SAUDADE: Ô dorzinha gostosa

Airton Soares

Uma pequena tristeza é um pequeno desapontamento. Nada grave. Passa logo. Já a angústia, é uma sensação de frustração que se estabelece no coração da alma. Chegou. Fincou. É dona do `pedaço´. Não existe polaridade. Angústia é angústia. Nem é pequena nem grande. Ela é. E pronto! A etimologia ajuda-nos a entender melhor. `Angusta´, no latim significa estreito. Por isso que sentimos aquela dorzinha gostosa apertando o peito da gente. Neste exato momento, minha saudade transita entre esses dois extremos, ou seja, entre o passa logo e a dona do `pedaço´.

11 de maio de 2007

A Culpa é da Crise!

Atendimento a Clientes

Por Airton Soares


Entro num bazar. Estava à procura de um blusão para compor o figurino de um novo personagem. Dirijo-me à vendedora falando baixo, mas o suficiente para ser bem ouvido: Senhorita, quanto custa este blusão? “Ela... nem olhou pra mim, ela nem olhou pra mim...” Insisto. Senhorita, quanto custa este blusão? Calada estava, calada ficou... Agora, com a voz um pouco alterada: SENHORITA, QUANTO... E nada! Neste ínterim, minha adrenalina já apostava corrida nas veias. Não aqüentei. Me acheguei aos seus ouvidos e gritei: S E N H O R I T A... Assustada, olha-me com um ar de irritação por ter sido eu o desmancha prazer do seu passatempo. A moça vendedora, absorvia-se em pensamentos profundos com um arranca-rabo de duas comadres no outro lado da rua.

Quando gritei já estava decidido a não comprar. Espero que a pseudo-vendedora tenha compreendido o meu discurso, embora subentendido, contido na simples palavra S E N H O R I T A.

Tanto se “esforçou” que acabou perdendo o cliente. Bem feito! No final do mês, na hora do “vamos ver”, a meta almejada despenca, mas a culpa ninguém assume. A culpa é da crise!