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23 de agosto de 2007

Aconchego de alcova














Os Amantes - Bateau-Lavoir 1904 Oca

Airton Soares

Por mais que se tente, não se consegue definir o sentimento com fidelidade. Acredito que ele seja como a energia, que ao chegar ao consumidor final já deixou pelos fios do discurso boa quantidade de sua força semântica.

Melhor seria que esta energia nem saísse da fonte verbal, e ao olhar na fonte dos olhos, tacitamente, compreender que o sentido do sentir está lá, concentrado, em sua plenitude.

A energia-sentimento diz tudo sem meias palavras, mesmo que os pólos estejam juntinhos no aconchego de alcova fingindo que tudo está `libidinosamente´ límbico!

Quando se gosta gostando, qualquer suspeita de curto-circuito, o sistema aciona um dispositivo auto-regulador. O que está havendo? Estou sentindo você tão distante!

Só definir enclausura, limita. Tratemos, portanto, de redefinir o que em nós é intangível com os olhos do coração, se não dá "apagão". Rima pobre, mas rimou. E é verdade!

19 de fevereiro de 2007

O SALPICÃO


Por Airton Soares


O salpicão fumegava, nas mesas, rodeado de ervilhas e olhares pidões. Ao meu lado, um par de fartos e opulentos seios, vitrinicamente exibido, roubava a cena da venerada e salivante iguaria.

Cuidei em dissimular minhas inquietudes. Nestas circunstâncias não é fácil administrá-las, mas engrandece quem aceita o desafio. Na verdade, a tarefa se abranda e nos torna menos vulneráveis e muito mais afoitos quando esse formigamento animal surge das profundezas do inconsciente. Daí leitor, não existir no Código Civil Brasileiro nenhum Artigo que condene os apetites do subconsciente. Não sei se a justificativa atende, mas foi a única que me veio à mente.

O fato é que, especificamente nesta situação, entre um olhar pidão e uma carícia oftálmica venceu, folgadamente, o segundo impulso. Viajei no tempo. Criei cenários. Tornei-me amante, virei poeta!

"Muito embora não se esgote,
todo assunto que é você,
mas pelo "V" do seu decote
quanta coisa a gente vê!"

Encantos feminis! Ô negócio pra tirar o juízo da gente. Tira e num bota mais no lugar e quando bota num fica mais do mesmo jeito. Fica fora de esquadro, fora de prumo.

Balancear, alinhar direção, virar o pescoço, fazer de conta que não tá vendo. Como? Me explique! Se a estrada continua lá com suas sinuosas e insinuantes curvas?

- Se eu fosse você.
- Olhe, tome tento.
- Tu num sabe onde tá se metendo!

Também, de pouca serventia são esses conselhos, reprimendas, ou coisa parecida. Saiba doutor Superego que a libido detesta ouvir razões! Ah, e nem desconfia, o mais vocacionado e apoteótico conselheiro familiar de que numa mulher, a vulcanidade dos gestos; um cruzar de pernas; um só riso; um trejeito inocente, a mais sutil lascívia, enfim toda essa gama de sortilégio feminil que a torna fêmea, fina e flor, pode num átimo de tempo, acordar em nós, os impulsos da animalidade, da amizade e do amor.

Por isso, leitor tem cabimento a feliz frase do poeta Dante Milano: No mundo, tirando a mulher, o resto é paisagem.